quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Trabalho voluntário


Texto por Adriana Pasello e Fernanda A. Franco, do Instituto Jetro


Nos últimos anos, o voluntariado tem sido um tema corrente na imprensa, nas empresas e na agenda de todos os governos. E como ajudar o próximo é dever de todos os cristãos, falaremos sobre este assunto nesta entrevista com a professora Andrea Goldschmidt, que trabalha como consultora na APOENA Empreendimentos Sociais, auxiliando empresas na implantação de programas de responsabilidade social junto às comunidades carentes. Andrea é administradora de empresas, com especialização em marketing, e atua como captadora de recursos desde 1999 e professora de Marketing e Captação de Recursos na ESPM e na FACAMP, além de colaborar com o Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS), da Fundação Getúlio Vargas.

POVOS – Quais são as características essenciais para todos aqueles que desejam realizar um trabalho voluntário?
Andrea Goldschmidt - Apesar de muita gente encarar o trabalho voluntário como uma atividade esporádica, considero que uma das principais características essenciais àqueles que desejam realizar um trabalho voluntário seja o compromisso com a causa e com a ação. Na maior parte das atividades, um compromisso permanente.

Para muitos, o conceito de voluntário se resume à mão-de-obra gratuita.
Acredito que, mais do que uma mão-de-obra gratuita, o voluntário tem o papel de auxiliar a organização beneficiada no desenvolvimento de atividades que ela não poderia realizar sem a presença dessas pessoas, seja porque não pode arcar com os custos de um profissional para esta função, seja por se tratar de uma atividade que requer um especialista ou uma atividade que precisa de um auxílio em tempo parcial. Muitos voluntários também auxiliam as organizações por meio de seus contatos, ou seja, mobilizando outras pessoas para que divulguem uma causa, captem recursos, etc. Todas essas atividades independem da presença do voluntário, que não está fornecendo uma mão-de-obra, mas outras coisas de grande valor para a organização.

Há diferença entre trabalho voluntário e prática da filantropia?
A filantropia, geralmente, está associada à doação de bens. O voluntário pode contribuir com seu tempo, seu conhecimento, seus contatos e, também, com a doação de bens. Dessa maneira, o trabalho voluntário pode ou não ter características filantrópicas. Muitas atividades desenvolvidas por voluntários ajudam a promover grandes mudanças estruturais ou administrativas nas organizações que os recebem e, nesse sentido, não têm características filantrópicas, mas, sim, de investimento social.

Bill Hybels, renomado pastor e escritor americano, autor de A revolução no voluntariado (Editora Mundo Cristão), fala sobre a existência de alguns mitos em torno do conceito de voluntariado.
Acredito que, muitas vezes, o treinamento aconteça na prática, de forma diferente do que imaginamos a princípio, quando o termo é mencionado. Não tenho dúvidas de que todo trabalho voluntário contribui para o desenvolvimento de quem o presta, seja do ponto de vista pessoal ou do ponto de vista profissional. Acredito, no entanto, que as pessoas estejam mais dispostas a receber treinamento e desenvolvimento como uma conseqüência e não como o primeiro passo para iniciar um trabalho voluntário. De qualquer maneira, em muitos casos, é importante que a organização promova um treinamento inicial, mostrando ao voluntário suas expectativas, seus limites, entre outras coisas.

Quais seriam os mitos ou equívocos mais comuns quanto à compreensão e definição de voluntariado?
Diria que é um equívoco o indivíduo participar uma única vez de uma ação e nunca mais se envolver. Isso, geralmente, cria mais problemas do que soluções para a organização que o recebe. Por outro lado, como “voluntário” ele não deve ser obrigado a participar de forma fixa. Acredito que o mais importante seja chegar a um meio-termo que alie o comprometimento com a ação e a flexibilidade de participação, conforme a conveniência para o voluntário.

Você acredita que as igrejas perderam um pouco de força ou influência no voluntariado com o engajamento de empresas e governos?
Acredito que as igrejas não vão perder a força. Primeiro, porque suas causas são muito mobilizadoras e, geralmente, os fiéis têm grande identificação com elas. Em segundo lugar, porque, geralmente, as pessoas gostam de realizar trabalhos em grupo, seja pelo ânimo que um voluntário dá ao outro, seja pelo fato de que as atividades já estão “organizadas”, facilitando o envolvimento de pessoas que têm dificuldade em começar algo do zero ou mesmo pelo reconhecimento que podem receber em suas comunidades. Em todos esses sentidos, as igrejas podem ter papéis muito importantes como facilitadoras e mobilizadoras de pessoas para a ação voluntária.

Há diferenças entre o voluntariado empresarial e o voluntariado desenvolvido a partir de organizações sem fins lucrativos?
No caso do voluntariado empresarial, é comum que as empresas que promovem a ação tenham algum interesse específico, como, por exemplo, o desenvolvimento de certas habilidades em seus funcionários ou a motivação para o trabalho em equipe. Ou, ainda, a integração de pessoas de áreas ou níveis hierárquicos diferentes. As alternativas de atividades disponíveis, nestes casos, costumam ser limitadas por um fator externo: o interesse das empresas, além dos interesses dos funcionários e das organizações que os receberão.

Quais são as maiores vantagens e desvantagens de uma organização do terceiro setor cuja força motriz é o trabalho voluntário?
A principal vantagem é poder contar com a força, os conhecimentos específicos e as áreas de influências dessas pessoas. A maior desvantagem, na minha opinião, é a dificuldade em manter uma equipe permanente e realmente comprometida com o trabalho, especialmente quando é necessário um grande envolvimento em termos do número de horas que as pessoas precisam dedicar a esse trabalho.

Nas organizações cristãs e nos projetos sociais, é necessário que os voluntários passem por um processo de recrutamento, seleção, adequação de cargos e funções?
Certamente. Um voluntário, assim como um profissional remunerado, só poderá exercer adequadamente a sua função se tiver habilidades e capacitação específica para isso. Pode parecer estranho “rejeitar” um voluntário, mas é preciso ter em mente que uma pessoa sem as qualificações ideais pode não contribuir adequadamente para a realização da atividade. Por exemplo, num programa de alfabetização de adultos, é importante que os professores voluntários conheçam a metodologia didática, tenham paciência, sejam atenciosos, lidem bem com as dificuldades que as pessoas vão sentir no começo.

Você comentou sobre a dificuldade em manter os voluntários comprometidos e envolvidos com a missão e os objetivos da organização. Que conselho você daria aos líderes para que o verdadeiro comprometimento seja promovido e mantido?
Como não há remuneração, o voluntário precisa sentir que está ganhando alguma outra coisa para se manter engajado e motivado a prestar o serviço. Ele pode aprender coisas úteis para a sua vida, pode se sentir feliz por fazer parte de um grupo, pode gostar da sensação de contribuir para a solução de uma causa, entre tantos outros fatores motivadores. É claro que cada pessoa sentir-se-á motivada por fatores diferentes, mas, de maneira geral, acredito que as ações de valorização e reconhecimento dessas pessoas sejam muito importantes.
BY CANTINHO DO BOG 1

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